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sábado, 16 de fevereiro de 2013

INSPIRAÇÃO BRASIL!!!

Acabo de receber o book de inspirações +B para o outono-inverno 2014, publicado pela Abest _Associação Brasileira de Estilistas e editado pela competente, criativa e perfeccionista ROSE ANDRADE.  Ela me convidou a escrever o texto para o tema Quentão, sobre os folguedos juninos do Norte-Nordeste do Brasil. Foi a segunda vez que eu colaborei com a publicação, que é um luxo gráfico e rico em imagens e textos inspirados. Confira o que eu escrevi na página [bilingue] que você vê na foto acima e confira mais imagens a seguir, neste mesmo post:

Anarriê é babado!  

A quadrilha vai começar!!! Damas de um lado, cavalheiros do outro!
A animação genuína desse Brasil é uma quermesse de influências e ressignificações. Pois não é que a aristocrática quadrilha dançada na Holanda, na França e em Portugal nos séculos 16 e 17 ganhou sotaque caipira? Coisa de matuto, de tabaréu, que achou bonito aquele bailado divertindo a elite imperial portuguesa no solo fértil da terra brasilis. E foi assim que dos palácios migrou para os clubes burgueses, e daí para o autêntico domínio do povo – a rua.
Então, anavantu (en avant tous), vamos para a frente. A quadrilha está esquentando! O Norte e o Nordeste se rendem às rendas e ao colorido exuberante para dar boas-vindas ao farto mês da colheita. É hora das flores graúdas da chita virarem foguetórios pipocando nos corpos frenéticos das nossas chiquinhas. No arrasta-pé alvoroçado no chão de terra batida, debaixo das milhares de bandeirolas multicoloridas, as listras e fitas dançam o xaxado da sanfona, o ribombar da zabumba, o “‘tilinguelingue”’ metálico do triângulo. Os babados dos fartos vestidos saltam das ancas femininas no meio do salão, fazendo crepitar o fogo do arraiá. A noiva, o noivo, o padre, os casais, surgem todos aos pares, na maior animação. Afinal é junho, tempo de acasalamento. Mês de santo casadoiro, da trindade santificada: Santo Antônio, São João, São Pedro. Misericórdia, que alegria danada de boa! Então vamos cair no balancê, minha gente!
Otrefoá (autre fois), todo mundo repetindo o passo anterior. A quadrilha já pegou fogo! Anarriê (an arrière), para trás, luxuosa Corte Francesa, agora é a vez dessa gente lindamente miscigenada do Brasil mais brasileiro! Repare só na elegância caipira que recicla a riqueza de ouros e brocados em lúdicos algodões, filós e palha natural. Que chique, sinhô!
E, já que os dançarinos estão nos trinques, basta se entregar à alegria e à vibração da quadrilha. Faz frio, mas o calor do quentão – na doce alquimia do vinho, gengibre, cravo e canela – se encarrega de aquecer o corpo, a alma e as (boas) intenções. Enquanto a fogueira arde cada vez mais, sobe até as narinas o cheiro do milho assado de cor amarelo-tostado. Mas o banquete caipira tem muitas outras iguarias: milho cozido amarelinho, canjica salpicada de canela, arroz-doce imaculadamente branco, amendoim marronzinho, batata-doce de tonalidade esverdeada. É uma profusão de cores, aromas e sabores que despertam qualquer paladar.
Já se fartou de comer e a quadrilha c’est fini? Pois levante, que a festa não acabou. Como não existe luar como o do sertão, o arrasta-pé vai longe, atravessa madrugada, vira dias, chega a mês. É a temporada do xadrez que veste toda a família, as crianças, os casados, os solteiros e os encalhados que não perdem a esperança de achar sua cara-metade. Vambora, gente, calça de novo a bota nos pés agitados que querem muito xaxar. E levanta a poeira no sacolejo do forró. Afinal, não é ‘for all’, para todos?
Olha a cobra, pessoal! Já passou!! Olha a chuva! Já passou!!
Eita Brasilzão feliz!!!

Roberto Pires
Esta é a capa do book, que traz uma narrativa dos estilos de vida encontrados em cada região do Brasil com pesquisas que inspiram artistas para a criação nacional. Esta sexta edição do +B Inspiração Brasil é a primeira sobre Inverno. O livro tem a intenção de servir como plataforma de referência a estilistas, designers, artistas, estudantes de moda e outros profissionais que identificam e relacionam seu trabalho ao nosso País. O material, que conta com o apoio do Sebrae e da Apex-Brasil, é retratado em três temas: Luar, Quentão e Bossa.

Para ROSE ANDRADE, coordenadora do projeto, a narrativa desta edição do +B foi olhar para o comportamento das pessoas durante o inverno, (que muda) dentro do estilo de vida nas quatro regiões do Brasil. “Apontamos algumas direções que possam vir a ser um desejo para a criação de moda”, explica Rose.

Ilustração linda para o Rei do Baião, Luiz Gonzaga.

Uma das belas imagens de moda contidas no book +B Inspiração Brasil.

Mais um look que você confere na publicação que é um show!
Esta cena é incrivelmente bela, retratando a nobreza popular.

Fotos Divulgação

domingo, 26 de julho de 2009

A ERVA DO AMOR

Este texto que eu quero dividir com vocês é fruto de uma extensa pesquisa feita por mim para o book de tendências +B _ Inspiração Brasil _ Verão 2010, da Associação Brasileira de Estilistas [www.abest.com.br], que reúne algumas das melhores marcas de moda do País, entre elas Rosa Chá, Ronaldo Fraga, Lenny e Reinaldo Lourenço. A brilhante publicação foi coordenada por Rose Andrade, uma profissional ultraperfeccionista e talentosa, que me encomendou o trabalho que vocês podem ler a seguir. Na foto, dá para conferir o resultado da edição, que ficou ainda mais bacana junto com a ilustração de Melissa Lagoa. Pra completar, Rose ainda teve a ideia de colocar um adesivo que ao ser puxado sentimos o cheiro de alfazema. Luxo total.

Alfazema, a erva do amor
Perfume tem o poder de despertar uma incrível sensação de bem-estar. Desde a Antiguidade o homem tem feito das fragrâncias suas fiéis aliadas. Seja como armas de sedução ou símbolos de fé. Sagrado e profano em profícua conjunção. Cheiro bom do sincretismo que agrega peles, raças, religiões. Registro de emoções dos tempos passados e de outros que estão por vir.
Respiração e perfume se irmanam. Pois o ar necessário à sobrevivência nos invade da mesma maneira que os odores. De todos os sentidos humanos, o olfato é o único vital.
Durante nossa existência, colecionamos olfativamente as mais diferentes sensações. O perfume de terra molhada quando chove. Da maresia nas férias curtidas á beira-mar. Quem sabe do jasmineiro que, ao anoitecer, exala uma fragrância adocicada. Ou da suave alfazema presente na infância. Seiva de um Brasil rico em cheiros.
Ramos de alfazema [cultivada pelas famílias nos jardins de casa] costumavam ser colocados dentro dos travesseiros. Sabedoria popular. Alfazema purifica, acalma, alivia dores de cabeça e tonturas. Estudos científicos já constataram que o seu cheiro é eficaz até para curar insônia.
A História comprova: alfazema perfuma os espaços terreno e divino.
No Brasil, é batizada como “erva do amor”. Seu banho deixa a pessoa mais atraente. Por outro lado, ela suscita desconfiança. Reza a lenda que cobras venenosas se escondem embaixo dos seus arbustos, fazendo desconfiarem da planta. Inocente, ela é sinônimo de lavanda e produz uma singela flor azul-arroxeada.
A alfazema também ganha a dimensão espiritual no espaço do imponderável. Perfuma os rituais do candomblé quando é acrescentada à água-de-cheiro [ou “amassi”], em cujo preparo se misturam folhas odoríferas maceradas em água. Está presente ainda em manifestações populares na Bahia, como a tradicional Lavagem do Bonfim e o desfile do bloco Filhos de Gandhi, no Carnaval.
Diz-se que quando um “Gandhi” borrifa com alfazema uma foliã, esta não resiste ao seu encanto...